Vamos juntos, (re)pensar nossos modelos de transmissão da fé cristã?

Nossas dioceses foram convocadas a estudar novas maneiras de fazer acontecer a catequese, tendo por base a metodologia da iniciação à vida cristã com inspiração catecumenal, a partir da realização da Conferência de Aparecida, que aconteceu no ano de 2007 no Santuário Nacional de Aparecida, com a presença de bispos da América Latina e do Caribe.

Esta nova forma de fazer catequese decorre de muitos fatores, dos quais destacamos a mudança de época, o sentimento de pertença a uma comunidade eclesial, a ressignificação dos valores básicos da família e da sociedade, entre outros.

A resposta da fé para estas motivações e tantas outras, específicas das regiões e realidades de cada comunidade, depende do envolvimento de muitos agentes, pessoas diferentes, fazendo atividades diversas, investindo em novos processos para transmitir a mesma fé herdada dos apóstolos, das primeiras comunidades cristãs, de nossos antepassados, de nossos catequistas e familiares.

E eis que chegou a nossa vez de dar sentido à fé que trazemos no coração. Porque a fé brota do sentir e do viver de cada pessoa humana, ao longo da concretude da história; a fé não se faz com um padrão ou modo único de vida, mas além disso, a fé sustenta a vida nas diferentes condições, enquanto somos agraciados ao acolher a mensagem do Evangelho e vivê-la em nossas relações: na família, na escola, na universidade, no trânsito, na padaria, no lazer e no trabalho.

O papa Bento XVI, quando inaugurou o Ano da Fé, escreveu assim na Carta Apostólica Porta da Fé:

“De fato, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. […] O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus. […] Por usa vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um fato privado. […] A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita” (Bento XVI, Porta Fidei 10).

Em nosso cotidiano, com pequenos gestos e decisões, damos a conhecer qual a fé que professamos. Transmitimos com palavras, sinais e atitudes o sentido e o jeito do nosso crer. A fé aparece por meio do nosso agir.

Herdamos a fé dos patriarcas e matriarcas, profetas e profetisas, homens e mulheres de todos os tempos que descobriram a face de Deus criador, providente, misericordioso, revelado em Jesus Cristo. Se é nesse Deus que cremos, deve ser do mesmo modo a nossa ação.

E continua o papa Bento XVI na mesma Carta Apostólica: “Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome está escrito no Livro da vida, confessaram a beleza de seguir o Senhor nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão” (Bento XVI, Porta Fidei 13).

Estão no Livro da vida, nossos familiares, os catequistas que guardamos na memória com gratidão e afeto, nossos párocos e bispos. Ou seja, as pessoas que deram testemunho cotidiano da fé que carregaram com a própria vida.

A fé é o grande tesouro que a comunidade eclesial tem guardado em suas orações, rituais e celebrações. E esta mesma fé carece de novas linguagens, novos métodos, iniciativas novas para ser transmitida aos homens e mulheres de nossos tempos, que vivem rodeados de inúmeras possibilidades de escolhas, entre elas, a fé em Jesus Cristo, vivo e presente entre nós.

De onde podemos partir para repensar nossos modelos de transmissão da fé?

Em tempos de mudanças, de crises e fortes reflexões, precisamos identificar as pessoas com quem podemos contar. E nos perguntar: Quem está ao meu lado, crendo comigo? Com quem professo a fé? A que comunidade pertenço? Afinal, concretamente, “por quem colocamos a mão no fogo?”

Ter fé é confiar. A caminhada de fé na Igreja, em uma comunidade eclesial, depende do sentimento de pertença que também está em crise em nossos dias, em nosso contexto sociocultural, em nossos grupos mais próximos.

Desse modo, precisamos estar cientes que “a catequese de inspiração catecumenal é uma experiência de vida cristã que parte do testemunho da comunidade e se explica pela revelação de Deus na história da salvação” (CELAM – AIDM 61).

A fé não é apenas para alcançar tal sacramento, mas para uma vida com significado novo todos os dias. E assim, progredir na busca de um sentido para a vida cristã.

Leigos e leigas transmitindo a fé da Igreja

A mudança dos modelos de transmitir a fé traz consigo um questionamento: Como está a formação do povo cristão, preferencialmente, das leigas e dos leigos? A fé precisa de argumentos e explicações que ajudem na compreensão do mistério divino que nos envolve.

Por esse motivo, é preciso ampliar o conceito de “catequista” e crescer no entendimento que a comunidade toda é catequista, isto é, está para servir e formar a fé de seus membros para que sejam verdadeiros discípulos e missionários do mestre Jesus Cristo.

“A comunidade que delega a seus catequistas os processos de iniciação se compromete também a dar-lhes acompanhamento contínuo para que eles, por sua vez, acompanhem a outros” (CELAM – AIDM 74).
A comunidade, encarnada no cotidiano da vida de leigas e leigos, é o local onde se realiza a nossa salvação, na história da fé que professamos, testemunhamos e carregamos em vasos de barros (cf. 2Cor 4,7).

Os ministérios a serviço da fé

O Documento de Aparecida ensina que “uma comunidade que assume a iniciação cristã renova sua vida comunitária e desperta seu caráter missionário. Isso requer novas atitudes pastorais por parte dos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e agentes de pastoral” (DAp 291).

Seguindo esse direcionamento, nosso contexto de mudanças e exigências de respostas convincentes exige leigas e leigos bem formados, capacitados para toda boa obra (cf. 2Tm 3,17).

A formação do povo de Deus, responsável pela capacitação técnica e instrumental, instrui as consciências para a responsabilidade ministerial herdada no Batismo, como profetas e profetisas, sacerdotes e sacerdotisas, pastores e pastoras, guiando o povo de Deus rumo à terra prometida.

A revitalização e renovação de nossos processos de transmissão da fé, com foco na catequese a serviço da iniciação à vida cristã, passa pela revisão e valorização dos ministérios eclesiais, de maneira criativa e responsável porque não são meios de promoção ou elogios particulares. Pelo contrário, exercer um ministério é fazer-se caminho, via de encontro do Senhor com o rosto dos homens e mulheres de todos os lugares.

Renovação do ministério sacerdotal

Para operar as mudanças desejáveis, em diálogo com a sociedade, a Igreja espera de seus pastores a coragem para a renovação corajosa e criativa da organização de suas comunidades de fé.

Quando aprovou o Plano de Emergência para a Igreja no Brasil, em 1962, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou:

“Quando falamos, por, em renovação pastoral, entendemos, em primeiro lugar e acima de tudo, um mergulho da Igreja em si mesma, para haurir de suas fontes divinas e perenes as águas vivas capazes de animar o mundo de hoje e inseri-lo no plano eterno da salvação” (Cadernos da CNBB 1).

São palavras escritas há mais de meio século, mas de atualidade inquestionável. Nossas comunidades estão congregadas em unidade aos seus pastores, ministros ordenados, cooperadores do bispo. A revisão de nossos modelos de transmissão da fé depende do engajamento dos ministros ordenados.

Recentemente, ao aprovar o Documento 107, a CNBB novamente exorta: “Especialmente aos párocos, compete cuidar para que os processos formativos de suas comunidades passem do estilo da instrução para o da iniciação que leva ao encontro pessoal com Jesus Cristo, à inserção na comunidade e ao zelo apostólico. Essa postura será tanto mais eficaz quanto mais tiverem conhecido e experimentado o processo a Iniciação à Vida Cristã” (CNBB, Doc 107, N 230).

Caminhamos dando razões de nossa esperança

Um contato mais direto com nossas comunidades revela que muitos catequistas, muitas de nossas lideranças e agentes da evangelização frequentam momentos de formação, acessam leituras e materiais nas mídias digitais e, em paralelo, os ministros ordenados conhecem pouco da metodologia e das linhas básicas da inspiração catecumenal e como ela pode contribuir para a renovação das paróquias.

Enquanto caminhamos, no diálogo e cooperação mútua, é preciso não perder de vista as orientações do Documento de Aparecida: “A renovação da paróquia exige atitudes novas dos párocos e sacerdotes que estão a serviço dela” (DAp 201). E ainda, “uma paróquia renovada multiplica as pessoas que realizam serviços e acrescenta ministérios” (DAp 202).

O evangelista Lucas narra, logo no primeiro capítulo, que Zacarias e Maria foram agraciados com a visita divina em suas realidades, e lhes exortava: “Não tenha medo!” Esta é a mensagem que precisamos recuperar em nossos grupos e não ter medo de ousar em novas metodologias que nos ajudem a transmitir a fé em Jesus Cristo, pois confiamos que o Espírito de Deus está conosco.

Ariél Philippi Machado é Catequista na Arquidiocese de Florianópolis (SC), Teólogo e Especialista em Catequese – Iniciação à Vida Cristã.

Veja os outros artigos da edição 82:

©[2022] Portal Paróquias - Todos os direitos reservados a Promocat Promotora Católica

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?