Preserve os bens sagrados com orientação profissional

A importância de preservar os bens sagrados para a memória da Igreja

Todo debate acerca da preservação dos bens sagrados e do patrimônio histórico e cultural, em particular do patrimônio edificado, suscita, invariavelmente, o questionamento do por quê preservar. Encontramos sempre duas respostas distintas, embora quase sempre indissociáveis: Economia e Memória.

Economia

A visão econômica, essencialmente materialista e pragmática, defende o preservar tanto as edificações isoladamente, assim como o tecido urbano. Isso é uma forma de evitar o desperdício da grande quantidade de energia despendida e acumulada na confecção desses empreendimentos.

Edifícios, ruas, praças e equipamentos urbanos, consumiram quantidades abissais de energia e recursos ao longo do tempo. Deu-se por meio da movimentação, manipulação e transformação de matéria-prima pelo esforço e intelecto humanos. Sem políticas e culturas de preservação a manutenção do patrimônio edificado e ambiental que assegura retardar o processo natural de fadiga e degradação dos materiais, ou mesmo o induzido pelo mau uso, como gerar recursos a curtos prazos de gerações para uma recomposição integral de nosso entorno?

O entendimento de que é possível restaurar e manter a custos mais baixos que demolir e reconstruir, seja em um sentido individual ou macro, vem ganhando corpo mais recentemente.

Políticas de incentivos fiscais e de concessões construtivas têm sido criadas para zonas urbanas de proteção especial. Sendo assim, o intuito é atrair e direcionar o capital especulativo para programas de restauração. Gradativamente, percebe-se uma nova consciência preservacionista. Ela vem desmistificando a ideia propalada. A aplicação de dispositivos de salvaguarda como o tombamento, por exemplo, promovem a estagnação dos processos de criação e circulação de bens e serviços.

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Memória

A visão do patrimônio como memória social, como herança paterna, no sentido etimológico da palavra, mais romântica e transcendente, interpreta o bem em todos os seus aspectos tangíveis e intangíveis. Essa é a visão enquanto obra concreta, de referências urbanas estéticas, históricas e afetivas da comunidade a que pertence. Afere a construção por seu valor antropológico, mais que pelo interesse financeiro e mesmo artístico, muitas vezes.

Esse aspecto de integração ao presente de um passado não extinto, mas vivo e que se funde ao cotidiano das pessoas, é que forma a base do pensamento que milita nos meios preservacionistas. Se o presente é fruto de todas as experiências ancestrais, o passado não passou, mas é experimentado e agregado continuamente. Também as edificações não são imutáveis. Portando, a soma de todas as intervenções humanas e manifestações naturais ocorridas nesse curso ininterrupto, o que induz a um mais amplo questionamento: o da autenticidade das intervenções de restauro.

O próprio ato de restaurar para preservar os bens sagrados já é em si uma intervenção no bem que produz o paradoxo de adulteração do estado genuíno. Além disso, em qual época podemos considerar uma edificação efetivamente original, se ao recompô-la, mesmo que ao seu estado primeiro de construção, estaríamos privando-a de muitas histórias incorporadas e doravante não mais transmitidas?

Projeto de restauros

Há muitas e diversas autenticidades inerentes a um mesmo bem edificado. Quanto à sua forma e volumetria, os materiais utilizados, processos construtivos adotados, localização, contextualização, dentre outras. Qualquer projeto que vise o restauro como forma de preservação de uma edificação, deverá, em conformidade às determinações ditadas pelos documentos de intenções e cartas patrimoniais, locais e internacionais, avaliar e definir quais os parâmetros técnicos e antropológicos a serem adotados. Será necessário definir o que, primordialmente, se pretende preservar.

O trabalho, portanto, requer pesquisa, conhecimentos e técnicas específicas de profissionais habilitados. O fator custo é o principal problema enfrentado para a disseminação dessa nova filosofia preservacionista. Quer a motivação ao restauro de um bem seja de cunho sentimental ou funcional, o empreendimento será norteado pelos recursos disponíveis. O foco principal do restaurador, se concentra em não incorrer em meras reformas desordenadas e destituídas de estudo científico.

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O patrimônio eclesiástico e a tradição

Em particular, as construções eclesiásticas requerem, por vezes, alterações internas na composição do espaço.  Devido as atualizações de ordem litúrgica, o que agrega um novo componente à discussão sobre a autenticidade e um nível de especialização mais elevado nessas intervenções. A Igreja se preocupa marcantemente com o tema desde o Vaticano II. Mais recentemente, com o advento da “Carta de Vila Vigoni” sobre a preservação dos bens eclesiásticos, e da instituição da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais.

O Papa João Paulo II, em discurso à Assembleia Plenária da Comissão em março de 2000, deixou-nos de forma clara essa visão: “…não deve causar admiração o fato de as Igrejas particulares se empenharem em promover a conservação do próprio patrimônio artístico-cultural. É através de intervenções ordinárias e extraordinárias, que lhe consentem a plena valorização. A Igreja não é só guardiã do seu passado. Ela é sobretudo animadora do presente da comunidade humana, em vista da edificação do seu futuro”.

“A comunidade católica e a comunidade civil devem se responsabilizar. Além de conhecer, guardar, valorizar e transmitir às gerações futuras toda a preciosa herança que lhe foi temporariamente confiada. Portanto, a Igreja Católica, em particular, deve considerar os bens sagrados e culturais como fonte primária da sua atividade pastoral. Isso contribuirá para a reevangelização do mundo contemporâneo.” (Carta de Vila Vigoni)

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Cláudio Torres é Engenheiro Civil Especialista em Restauro e Preservação do Patrimônio, com ênfase em Arquitetura Religiosa. Pós-Graduado em Teologia. Atua como assessor para diversas congregações religiosas.

Texto escrito por Cláudio e adaptado por Redação Promocat

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