O alcoolismo, um mal que está no meio de nós

Como lidar com os casos de alcoolismo?

O alcoolismo analisado sob a luz da sobriedade, é constrangedor. Para um religioso, o peso da culpa e auto cobrança nesses momentos são descritos como quase insuportáveis. O fato é que a doença está para a igreja, como está para a sociedade e pode ser controlada em ambos os casos.

A Fazenda da Esperança

A Fazenda Esperança, de Guaratinguetá, foi um dos lugares escolhidos pelo Papa Bento XVI em sua viagem ao Brasil, no ano passado. O motivo é que ela é uma referência internacional no tratamento de dependentes compulsivos. Seja por drogas, jogos, hábitos ou bebidas. A instituição tem 25 anos e já conta com outras 50 instalações pelo mundo, replicando seu modelo de sucesso no tratamento e recuperação de dependentes.

Hoje, em Guaratinguetá, interior de São Paulo, há pessoas em tratamento. Algumas delas são religiosos diagnosticados como alcoólico-dependentes, a maioria proveniente de lugares distantes, como a Índia ou a Alemanha. Isso mesmo! Pode parecer incrível, mas o alcoolismo também afeta padres e freiras no Brasil e no mundo, e quando acometidos, acabam vivendo um drama muito mais intenso do que o dependente alcoólico comum.

Para Frei Hans Stapel, fundador da Fazenda Esperança, a Igreja está inserida no mundo, e é feita de pessoas que buscam identificar-se em seus princípios morais e éticos. O convívio social e o consumo do álcool são elementos simples. Para ele, o alcoolismo nada mais é que um grande grito de carência. Um forte sintoma de que alguma coisa no fundo da alma da pessoa acometida não está resolvida.

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Como a Igreja deve agir?

Primeiramente, quando um problema como esse atrapalha sua atividade pastoral e evangelizadora, a pergunta é: o que fazer? “Imagine se eu estou bebendo muito! Eu trabalho muito e preciso descansar… é nessa hora que eu relaxo!”, A fala é descrita pelo padre Arnaldo, de Belo Horizonte, lembrando seu discurso, quando conta a respeito de seu estado de embriaguez, que já foi permanente. E ele declara: “Eu já tive seis recaídas. Tem uma hora que a compulsão é maior do que a gente. Enquanto bebia, eu negava os sentimentos de raiva, ressentimento, culpa e medo, apesar de minha consciência acusar o problema.

Várias vezes prometi aos padres que me acompanhavam que pararia, que tinha o controle da situação e etc, dois ou três dias depois eu voltava, pois a compulsão é tão forte que você perde o critério”, lembra.

Padre Arnaldo complementa seu depoimento ressentido: “Eu bebia de tudo, vinho, vodca, cachaça, e com isso, perdia a noção do tempo, perdia o critério moral e ético… Lembro-me que gastava, em média, R$ 400,00 mensais com a bebida, dinheiro que gasto hoje com livros, CDs e DVDs…” Padre Arnaldo, 41 anos, conta que entrou no seminário aos 14 anos, ordenou-se aos 27. Ele acredita que a doença tenha sido desenvolvida no seminário, já que todos bebiam, mas observa que só ele manifestou a doença.

Enquanto a descrição é dada na primeira pessoa, as palavras são muito duras. Mas o alcoolismo, sob o ponto de vista de terceiros é muito mais amena, pelo menos no âmbito da Igreja. Para Frei Hans, o alcoólatra religioso, que tem o compromisso de guia e pastor, se sente muito mais culpado e envergonhado do que um leigo, um cidadão comum.

O ser humano x números

Números estatísticos, descrição de danos à saúde do indivíduo, impacto no PIB do país, podem impressionar, mas nenhum outro elemento, entretanto, impacta mais do que o relato de um portador da doença, quando em fase de recuperação. Seu discurso sempre vem acompanhado de emoções fortes. Como “culpa”, “ressentimentos”, “mágoas”, mas que são contrapostas imediatamente com “humildade”, “solidariedade” e “prontidão”.

A Associação Comunidade Vida Nova (CVN) é uma referência quando o assunto é recuperação de religiosos da Igreja Católica. Desde sua fundação, a instituição já recebeu e tratou mais de 500 padres e freiras. Além disso, atendeu cerca de 500 leigos indicados pelas comunidades religiosas.

Como funciona?

Padre Guilherme Tracy é o fundador da instituição e trabalha há 27 anos na missão que, segundo ele, foi um desígnio de Deus. Seu foco de trabalho é o religioso acometido pelo alcoolismo e ele discorre com propriedade sobre o tema. Auto-denominado “alcoólatra em recuperação” a partir de 1978, desde 1981 dedica sua vida e seu trabalho à missão de ajudar aqueles religiosos ou seus indicados, no controle da doença. Contudo, a instituição é referência na América Latina por seus resultados e também pela segmentação.

Para o padre Guilherme, o problema do alcoolismo na Igreja é igual ao problema fora dela. “Há diabéticos dentro e fora da Igreja, como há alcoólicos também. Essa comparação vale para explicar porque somos ‘alcoólicos em recuperação’ e não, ‘ex-alcoólatras’. Tal e qual, não existem ‘ex-diabéticos’, e sim ‘diabéticos em tratamento’ e não existem mulheres ‘meio-grávidas’, como não existem ‘meio-alcoólatra’, explica didaticamente”. A explanação dele prossegue pacientemente. Entretanto, ele afirma que alcoolismo é decorrente de uma predisposição genética, um inimigo instalado no DNA da pessoa, que nasce com ela e deverá acompanhá-la até o dia de sua morte. “Bebi durante 20 anos, me confessava depois de cada porre e voltava a beber, pois sou impotente em relação ao álcool”, lembra.

“As pessoas me perguntam como eu me interessei em ajudar padres e religiosas que sofrem com o alcoolismo. Foi quando Nosso querido Poder Superior, que conheço como Jesus, meu Salvador, me pegou nos braços e me levou a tratamento”, descreve. “E Ele o fez por meio de um padre amigo, que soube me conduzir. Quando voltei à sobriedade ele começou a me trazer outros padres que precisavam de ajuda”.

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O tratamento

A base do tratamento na CVN é inspirada nos padrões dos Alcoólicos Anônimos (AA). Uma linha de trabalho surgida em 1935, nos Estados Unidos, e que se espalhou pelo mundo. Segundo estimativas da sede paulista, hoje são 2,5 milhões de alcoólicos em recuperação no planeta. Um total de 180 mil no Brasil, reunidos em seis mil grupos.

Seus fundadores Bill W. e Dr. Bob, se encontraram porque o primeiro, que acabara de fazer um tratamento contra a bebida, havia mudado de cidade. Ele achou que precisaria conversar com outro bebedor, para pelo menos, trocar uma ideia. Dr. Bob, que era médico A conversa se estendeu por seis horas. De tão profícua, daquele encontro nascia o que o Papa João 23 definiria mais tarde como “O milagre do século 20”, ou seja, os Alcoólicos Anônimos.

Falha de caráter

Até início da década de 1970 a dependência química por drogas e álcool era tida pela sociedade como desvio de personalidade, falha moral ou de caráter. Com a evolução dos estudos e pesquisas no campo da Psiquiatria, a questão passou a ser encarada como “doença” e que precisa ser controlada. Mas as mudanças no comportamento social não ocorrem assim tão facilmente. O peso da culpa que recai sobre o alcoólatra ou dependente de drogas, e também sobre sua família é imensurável. A carga de julgamento moral em cada entrelinha dos relatos daqueles que estão em recuperação é sempre pesada, como se os pecados do mundo estivessem sobre eles.

A medicina ainda não tem estudos comprobatórios de que o alcoolismo seja uma doença hereditária. O que a Medicina constatou é que de 40% a 60% dos dependentes de álcool apresentam um quadro de depressão e ansiedade. Portanto, isso leva os médicos a crerem que o uso prolongado do álcool pode estar associado a essas doenças.

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Sites de pesquisa sobre o tema:

Fazenda da Esperança
www.fazenda.org.br

Alcoólicos Anônimos
www.alcoolicosanonimos.org.br

Por Redação Promocat

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