Número de evangélicos pode superar o de católicos no Brasil em pouco mais de uma década
Número de evangélicos pode superar o de católicos no Brasil em pouco mais de uma década

De acordo com o Pesquisador do IBGE, já em 2022 os seguidores do papa devem ser inferiores a 50% da população e o número de evangélicos aumentará

Segundo a previsão de José Eustáquio Alves, doutor e pesquisador em demografia, após cinco séculos de predomínio da Santa Sé, vem aí a era de maior número de evangélicos – os “crentes”, como são popularmente conhecidos.

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O Jornal Folha de São Paulo usa o exemplo da ambulante Maria Aparecida dos Santos, 43, que se denomina “uma carola que virou crente”. Assim como Maria Aparecida, que se define também como uma ex-“tiete do João Paulo II” e que migrou há 15 anos para a Assembleia de Deus, o país viva, há cerca de três décadas uma transição religiosa que poderá, em 12 anos, destronar o catolicismo – os tais “carolas” – como a maior fé nacional.

Entre os anos de 1991 e 2010, o número de católicos caiu 1% ao ano, e os evangélicos cresciam o,7%. De acordo com Alves, são várias as indicações de que a queda do primeiro grupo passou para 1,2 nos últimos anos, e a subida do segundo, para 0,8%.

A partir de 2010, a estimativa seria ainda maior. Hoje, católicos são metade do país, segundo a pesquisa Datafolha feita nos últimos dias 5 e 6 de dezembro. E foram os evangélicos que melhor ocuparam esse espaço vago, seguidos por pessoas que se declaram de outras religiões ou sem nenhuma delas (este grupo, no período, expandiu-se em torno de 0,4% por ano).

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Menos de 50% da população

O pesquisador, que se aposentou em 2019 do IBGE, projeta que a partir de 2022, o ano em que o país comemora sua independência, os seguidores do Vaticano devem encolher para menos de 50% e, dez anos depois, seriam 38,6% da população.
Já em 2032, os evangélicos alcançariam o marco dos 39,8%. Sendo assim, superariam os irmãos que seguem a catequese e as doutrinas do catolicismo.

Esse segmento, a mais veloz locomotiva dos protestantes, um movimento que se separou da Igreja Católica meio milênio atrás, teria então a maior parcela, mas não a maioria da população brasileira.

“Não sei se este crescimento vai continuar. Não existe nenhum determinismo nesta questão”, diz Alves. “Mas é uma possibilidade que está aberta, e os evangélicos podem, sim, ser a maioria absoluta lá pelos idos de 2050. O futuro dirá?” Essa espécie de “placa tectônica” de fé fez o próprio pesquisador reajustar suas expectativas. Em um artigo redigido em 2017, Alves calculou que evangélicos ultrapassariam católicos até 2040. Essa perspectiva foi mais ligeira, contudo, o que o levou a antecipar essa tendência em alguns anos.

Para Alves, palavras-chave para essa aceleração: ativismo evangélico, passividade católica e maior interação entre igrejas evangélicas e políticas. Contudo, um dos fatores que devem ser evidenciados nessa equação foi o apoio em massa dos maiores líderes do segmento ao presidenciável Jair Bolsonaro em 2018.

Foto: Nacho Doce/Reuters

A força da Igreja Católica

Três décadas bastaram para o Brasil perder um monopólio relativamente estável desde a chegada dos portugueses – que celebraram a primeira missa por aqui em 26 de abril de 1500, quatro dias após desembarcarem.

“A Igreja Católica participou do projeto de colonização e cresceu muito se fortalecendo junto às populações rurais, com baixa mobilidade social e com pouco dinamismo”, afirma Alves.

Há 148 anos atrás, o primeiro censo demográfico nacional, revelou que 99,7% da população (quase 10 milhões de pessoas) se curvava à Santa Sé.

De acordo com as palavras do pesquisador, é preciso certa cautela para se debruçar sobre esses dados. “Em 1872, éramos uma monarquia, e a católica era a religião oficial. Outras religiosidades eram perseguidas ou bastante controladas. Por exemplo, todos os escravos foram definidos como católicos, sem ter chance e escolhas. As crenças indígenas também não apareceram.”

Para Clemir Fernandes, pastor batista e sociólogo do Iser (Instituto de Estudos da Religião), outro cuidado a ser tomado diz respeito ao potencial de dilatação dos evangélicos. “Todos os movimentos têm tetos de crescimento, pois estão em interação com muitos outros.”

Fernandes lembra da Coreia do Sul. O país tem um número significativo de pessoas sem quaisquer filiações religiosas (56%, segundo censo de 2015). Em resumo, o maior bloco de fé é o protestante, com quase 20%, excedendo budistas e católicos. “Nos anos 1980 e 1990, evangélicos sul-coreanos aumentaram em taxas muito elevadas. Já nos anos 2000 isso arrefeceu, e a Igreja Católica voltou a crescer.” aponta o sociólogo.

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Neopentecostalismo 

Para ele, são muitos os fatores que levaram evangélicos ao atual patamar no Brasil. Se pararmos para pensar, o grupo propulsionou sua presença a partir da redemocratização, “quando a sociedade tradicionalmente católica passa por mudanças, e havia espaço para novas possibilidades, incluindo novas crenças”.

Fernandes ainda afirma que a oratória evangélica, sobretudo a neopentecostal, parece ser o número dos nossos tempos. “A pregação católica é mais coletivista, e o mundo se tornou mais individualista, procurando resolver problemas de maneira mais individual. A evangélica tem uma pregação que conjuga esse tipo de apelo.”

E ela atende também a tempos mais apegados à customização. “Essas igrejas têm uma diversidade enorme de discursos diferenciados para movimentos, tribos e classes sociais. Tem para todos os gostos, e é bom que se diga sempre, até para LGBTs, o que não acontece tanto no mundo católico, de certa homogeneidade.”

A Igreja Católica pode ser mais lenta para se adaptar a novas realidades, mas não dá para menosprezar uma tradição de séculos, e parada ela também não está. A Renovação Carismáticas dos católicos é um bom exemplo de reação, segundo Fernandes.

Novas formas de evangelizar

“O declínio seria muito maior se não fosse a atuação forte dessa corrente em meios de comunicação, com um estilo de pregação e uma estética litúrgica muito parecidos com os pentecostais e neopentecostais, segmento que mais cresce no mundo evangélico.”

Contudo, Maria Aparecida, a “ex-carola” que hoje segue a pentecostal Assembleia de Deus, ama ouvir Marcelo Rossi e outros padres cantores, marca dos carismáticos. Também simpatizou com papa Francisco, que lidera a Igreja desde 2013. “Ele é fofinho, o anterior [Bento 16] era mais chatola”, diz.

Batizada evangélica numa piscina dentro de uma igreja que não existe mais, Maria conta que virar crente foi a melhor coisa que aconteceu para sua vida. “Mas não tenho birra com os católicos, não. Se eles são maioria, se é a gente, o que importa á o Senhor nosso Deus ser soberano. Amém?”

Com informações de Folha de São Paulo

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