Estruture a gestão de sua paróquia de forma que haja um verdadeiro “aggiornamento”

Você sabe para que serve um aggiornamento?

Nota-se que nos últimos anos a Igreja tem buscado conhecer mais as atuais exigências dos órgãos estatais sobre ela e, ao mesmo tempo, tem crescido a consciência e a necessidade do cumprimento das mesmas para o seu bem-estar e da sociedade, pois no domínio jurídico, a Igreja é uma entidade do ‘Terceiro Setor’ definida igual às demais pessoas jurídicas.

Segundo o Conselho Regional de Contabilidade de Minas Gerais, “as entidades do Terceiro Setor têm origem na agregação de pessoas que instituem organizações com o objetivo de prestar serviços nas áreas de cultura, lazer, saúde, educação assistência social e cidadania (…), com objetivo de atender aos anseios da coletividade, visando auxiliar o Estado em seu fim institucional, uma vez que este precisa atuar conjuntamente com a sociedade organizada” (CRCMG, p. 15).

Curiosamente, nesse mesmo sentido, o 10º Congresso Nacional de Gestão Eclesial (CONAGE) tangenciou o assunto da vocação do presbítero. Afirmou que o homem que foi chamado para ser padre, preliminarmente se viu fazendo parte de uma Igreja profética, cuja presença comunica Deus às pessoas. A partir daí, vem à vontade de servir o Senhor, por meio das atividades eclesiais e especificamente sacerdotais.

Porque o entendimento sobre esta consagração ministerial ainda é menor no princípio, pois é pouco provável que o vocacionado se veja gerindo funcionários, obras, contas bancárias, segurança patrimonial e buscando entender de leis e outras atribuições da gestão paroquial (Cf. MADUREIRA). No entanto, uma vez ordenado, se a necessidade for maior, o sacerdote está sujeito a ser enviado para a paróquia e espera-se que com o auxílio dos fiéis, com os seus dons e a graça de Deus possa bem geri-la em todas as suas instâncias: pastoral, canônica, jurídica, econômica e financeira.

Comporte-se como um gestor

Considerando a leitura “dos sinais dos tempos” (Lc 12,56), ser Pastor (Jo 10,11a) é essência do padre, mas também é necessário ser gestor, como se elenca. Requer humildade e interesse para continuar a aprender nos estudos e na prática. Deve compreender a afinidade entre as pessoas do Terceiro Setor e dar a atenção requerida às questões jurídicas, observando-as se estão aplicadas dentro da transparência e da legalidade esperada. Em construção civil, necessita mais que noções para reformar e ampliar os imóveis paroquiais.

Requer-se ainda, apreciar as leis trabalhistas e de segurança no trabalho para se relacionar com os funcionários da Mitra, sem contar que é fundamental saber sobre contratos para bem negociar os trâmites e ter uma boa visão da contratação dos serviços de terceiros. Cuidar para que haja dinheiro para as necessidades sem perder o espírito de pobreza, de modo que ele sirva, não governe e não seja antiético ao ser humano (Cf. EG, 58). Enfim, é importante conhecer os direitos e os deveres. Nisso tudo, o padre há de se esforçar para ser como um bom pai de família (Cf. cân. 1284) que distingue “o que é da comunidade, da Igreja local, daquilo que é particular ou privado” (Cf. PEREIRA, p. 390).

Pode ser que a preferência pela delegação destas áreas seja conferida aos especialistas. Isso é bom e a Igreja já tem feito isso para que ela possa bem discernir as coisas, mas é importante o acompanhamento do pároco, afinal, o parecer do especialista não subtrai a sua responsabilidade, como pastor próprio (Cf. cân. 519). Por isso é relevante a sua atualização e busca de saberes complementares ao ministério recebido na ordenação. Estes ajudam no diálogo com as diversas instâncias e proporcionam certa segurança para chegar às melhores conclusões, evitando constrangimentos.

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Atitudes legais

Noutra perspectiva pode ser que alguém entenda que a Igreja não necessite prestar contas, ou que as suas construções – por serem de uso comunitário – não necessitem estar em dia, ou ainda que o voluntário deva dar seus préstimos de qualquer modo simplesmente porque é oblação. Enfim, “ache” que atender às exigências do governo seja desnecessário.

Sendo assim, enveredar por estas sendas carece cuidado. Boas intenções aliadas somente à ingenuidade podem estar situadas muito próximas do senso comum ou dentro dele. Conclusões assim podem ser indícios de desinteresse e comodismo. Se há zelo e decoro com a face sacramental da Igreja, melhor e mais completo se torna quando também à face temporal é dispensada mais zelo e decoro. Se o aspecto jurídico está em dia, certamente a porta da Igreja se amplia para o encontro com o Senhor com maior acessibilidade. Isso não é legalismo.

Mudança para o rumo certo

Jesus, o Bom Pastor (Jo 10,14) disse que o seu Reino não é deste mundo (Jo 18,36) e fundou a Igreja sobre estruturas humanas (Mt 13,24-30; Mt 16,13-23) das quais ela se utiliza para sinalizar o Reino (Lc 4,43; Lc 17,20-21). No entanto, para que este fosse mais manifesto entre os homens, advertiu que fosse dado à instância deste mundo tudo o que é dele e a Deus tudo o que lhe pertence (Lc 20,25). Ainda aconselhou que houvesse planejamento para realizar as atividades (14,25-33) e não aboliu a Lei, procurou cumpri-La (Mt 5,17).

Esta memória bíblica lembra que o Filho de Deus sem abandonar sua natureza Divina e nem pecar, viveu plenamente sua condição humana igual os demais homens (Fl 2,6-7). Ela apoia a afirmação do Vaticano II: “Igreja como que o sacramento ou sinal da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG, 1). Assim, como Pessoa Jurídica, a Igreja se sujeita também às leis da sociedade, desde que favoreçam a abundância da vida (Jo 10,10) para bem sinalizar o Reino do qual ela faz parte.

Hodiernamente, percebem-se avanços na Igreja que se esforça para acompanhar o movimento da sociedade que se capacita cada vez mais e que existem mais deveres hoje do que se percebia noutros momentos históricos. Ignorar e negligenciar essa caminhada seria uma espécie de “fuga mundis” e o estabelecimento da dicotomia Igreja-mundo, sendo que o Vaticano II fala do “aggiornamento” que não sujeita, não nivela, nem pactua com o mundo de hoje. Dessa forma, não é acomodação do cristianismo ao mundo moderno, nem uma espécie de “eclesiastização” do mundo, uma nova cristandade (Cf. LORSCHEIDER).

Mudar é aceitar o novo!

Felizmente, a Igreja tem caminhado no rumo certo, embora alguns (Cf. PEREIRA, p. 396) ainda necessitem se despertar mais para estas urgências que o século XXI apresenta. O 10º CONAGE alertou que o mundo conhecido por nós quando éramos pequenos já acabou. A Igreja caminha mais lenta que a sociedade e precisa se estruturar bem para melhor evangelizar (Cf. CASTRO). É encontrando com este raciocínio que a obra “O mundo mudou… bem na minha vez!”, leva a refletir sobre o homem do século presente.

Afirma o autor: “Somos todos do século passado… Ou melhor, somos todos do milênio passado! Precisamos entender o que está acontecendo, antes que seja tarde” (p. 97). E clamou: “Mudar é aceitar o novo. Para isso, é preciso estar aberto ao novo, para que ele não nos choque e nos renove. Mudar é conhecer o novo” (p. 38) que se apresenta no presente e facilita que a Igreja esteja “em saída” (EG, 20), para todos os lugares aonde o Senhor enviar (Cf. Jr 1,7), em situações regulares e amparada pelos direitos que possui.

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REFERÊNCIAS

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. 4.ª ed., São Paulo: Loyola, 2004.

COMPÊNDIO DO VATICANO II: CONSTITUIÇÕES, DECRETOS E DECLARAÇÕES. Constituição Dogmática “Lumen Gentium” sobre a Igreja. Petrópolis: Vozes, 2000.

CONSELHO REGIONAL DE CONTABILIDADE DE MINAS GERAIS. O Terceiro Setor. Ano XVII, n.º 169, Belo Horizonte: Rona Editora, set/out 2014.

FRANCISCO, Papa. Exortação apostólica Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho ao mundo atual. São Paulo: Paulus, Loyola, 2014.

PEREIRA, William C. Castilho. Sofrimento psíquico dos presbíteros: dor institucional. Petrópolis: Vozes, 2012.

SCHNEIDER, Dado. O mundo mudou… bem na minha vez! São Paulo: Integrare, 2013.

Internet
LORSCHEIDER, Dom Aloísio. Linhas mestras do Concílio vaticano II. São Paulo: Revista Pastoral, Julho-Agosto, 2005. Disponível em: www.vidapastoral.com.br.

Palestra
CASTRO, Fábio. O que o marketing é capaz de fazer pelos projetos da sua Igreja? (Palestra). Aparecida: 10º CONAGE, 2014.

MADUREIRA, Aristides Luís. Dízimo sob as perspectivas: profética, eclesial e pastoral (Palestra). Aparecida: 10º CONAGE, 2014.

Pe. Sidney S. Carvalho é Técnico em Contabilidade, Pós-Graduando em Gestão Religiosa e Paroquial, pela Faculdade Dehoniana, Licenciado em História pelo UNIFEG, Pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças de Poços de Caldas/MG, Diocese de Guaxupé/MG.

Escrito por Pe. Sidney e adaptado por Redação Promocat

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