Jesus em sua peregrinação a Jerusalém, onde iria celebrar pela última vez a ceia pascal, faz o anúncio de sua paixão aos seus discípulos: “Então começou a ensinar-lhes que o Filho do homem deveria sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumo sacerdotes e pelos escribas, que deveria ser morto e ressuscitar depois de três dias” (Mc 8,31-32). Os discípulos ficaram decepcionados, frustrados e sem compreender direito o que significavam as palavras de Jesus, pois buscavam um reino terreno, de poder e status. Prova disso são as diversas discussões de quem é o maior (cf. Lc 22,24; Mc 8,32; 9,33-34).

Diante da reação dos discípulos e da falta de entendimento, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e os leva para um monte alto e afastado “e transfigurou-se diante deles. Suas vestes ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira do mundo as pode branquear. Apareceram-lhes E lias e Moisés conversando com Jesus” (Mc 9,2-4). Com a transfiguração, Jesus antecipa aos discípulos, e os faz experimentar o céu, revelando-lhes o Reino prometido, de que valeria a pena assumir a cruz e a morte, para alcançar a ressurreição. A experiencia é tão grande e profunda que Pedro não quer mais descer, quer armar três tendas e ficar ali. Jesus, porém, desce com eles o monte e continua o caminho.

Na liturgia, fazemos essa experiência da transfiguração. Durante a semana, abraçamos as cruzes e desafios, lutamos para continuarmos no caminho. Quando estamos desanimando, exaustos muitas vezes, a Igreja nos convida a subir o monte e lá experimentarmos o céu, a provarmos o que nos aguarda no terminarmos nossa peregrinação terrestre. Assim, pela liturgia a Igreja cumpre o mandato de Jesus: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). “Não se trata de uma simples recordação, mas de uma atualização. Através da ação memorial, o passado é trazido para o hoje da celebração litúrgica e o futuro, a vinda gloriosa de Cristo, torna-se presente e antecipado na ação ritual” , e o Espaço Litúrgico, a igreja, torna-se o ícone da montanha do qual subimos e vivenciamos essa transfiguração através da ação ritual.

O Espaço celebrativo, portanto, não é um lugar qualquer, ele deve revelar o céu, deve ser ícone da presença de Cristo e do seu corpo: a comunidade. Não é um espaço de “gosto de pessoal”, nem da extensão de nossa casa. Há normas e critérios que o regem, e orientam os profissionais nos projetos e edificações. O espaço litúrgico tem um caráter sacramental em função do mistério pascal de Jesus Cristo, onde o mesmo se manifesta na assembleia celebrante, através dos sinais sensíveis que constituem a liturgia. Sendo assim, com o mesmo carinho que os discípulos prepararam o lugar da ceia, nós também preparamos e organizamos o espaço da celebração, como quem acolhe a graça de Deus que se comunica conosco, no aqui e no agora de nossa história.

A primeira finalidade das igrejas, é reunir o corpo eclesial para celebrar o mistério de nossa salvação. Assim, o que determina como este espaço deve ser, é a própria liturgia, constituída por seus ritos e símbolos. Neste sentido, o templo precisa começar a ser projetado de dentro para fora, partir do seu centro que é o altar. Assim os profissionais e comunidade, numa equipe multidisciplinar, pensarão o espaço a partir dos ritos que nele são realizados, nas ações rituais de cada sacramento e sacramental. Diante disso, os envolvidos no projeto precisam conhecer a liturgia, devem ser especializados em espaço sagrado, não bastando ser um bom profissional, mas antes de tudo, um bom cristão.

No ambiente celebrativo, quatro elementos são fundamentais para constituir e caracterizar o espaço litúrgico: O lugar da assembleia, o altar, o ambão e a cadeira da presidência, elementos estes, reveladores da presença e do mistério celebrado na liturgia:

A assembleia, o templo em si

Os verdadeiros templos somos nós, assembleia de batizados que reunidos constituem o corpo do Senhor. Portanto, Isto deve ser revelado tanto pela disposição arquitetônica geral do espaço, como pela disposição dos bancos ou cadeiras. Que os fiéis possam de preferência estar em círculo, onde todos possam se olhar, se sentirem comunidade bem unida, na escuta atenta da Palavra e na participação digna da Liturgia.

O altar, sinal de Cristo

O altar cristão por sua natureza é a mesa própria para o sacrifício e do banquete pascal; mesa onde o sacrifício da cruz se perpetua, até a vinda de Cristo. Mesa onde os filhos da Igreja se congregam para dar graças e para receber o Corpo e Sangue de Cristo. A ele reverenciamos com a vênia e com o beijo, pois o altar é símbolo eminente de Cristo. Portanto, como nos diz o Ritual de dedicação de um altar (n. 4), em todas as igrejas o altar é “o centro das ações de graças oferecidas pela Eucaristia, para o qual de algum modo todos os ritos da igreja convergem”.

O ambão, mesa do banquete da Palavra

“A igreja sempre venerou as Escrituras, como também o próprio corpo do Senhor, sobretudo na sagrada liturgia, nunca deixou de tomar e distribuir aos fiéis, da mesa tanto da palavra de Deus como do corpo de Cristo, o pão da vida”. (DV21). Assim sendo, segundo as orientações da Instrução Geral do Missal Romano (n. 309), “a dignidade da palavra de Deus requer na igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra”. Portanto o ambão é o ícone espacial que antecipa e permanece na igreja como sinal do anúncio da boa nova de Jesus, Palavra do Pai. O Ambão simbolicamente representa o jardim do anúncio da ressurreição.

Cadeira da Presidência

Na verdade, quem preside a Liturgia é o Cristo, na pessoa do presidente da celebração. Assim sendo recomenda-se que a cadeira da presidência seja uma peça única, diferente das demais, pois ela representa o ícone de Cristo-cabeça que preside a comunidade. O espaço ocupado pelo presidente deve enfatizar a dignidade e o serviço desempenhado: ensinar, governar e santificar a comunidade. E ao seu lado sempre haja assentos para outros ministros representando que a comunidade se estruturava a partir de seus ministérios ou serviços desempenhados.

Pe. Thiago F. Paro é Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Tem formação em Pedagogia, pela Faculdades Integradas Soares de Oliveira, de Barretos, e Teologia, pelo Centro de Estudos Superiores Sagrado Coração de Jesus, de São José do Rio Preto. Entre suas especializações, estão os cursos de Espaço Litúrgico e Arte Sacra e Liturgia, Ciência e Cultura, realizados nas unidades da PUC do Rio Grande do Sul e São Paulo, respectivamente. Padre Thiago é autor da coleção de catequese “O Caminho” e dos livros “As celebrações do RICA – conhecer para bem celebrar”, “Conhecer a fé que professamos” e “Catequese e Liturgia na Iniciação Cristã: O que é e como fazer”, publicados pela Editora Vozes.

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