Diálogo: de Jesus a uma Igreja em saída missionária

Diálogo: de Jesus a uma Igreja em saída missionária

Como já temos costume, todo tempo quaresmal, a Igreja no Brasil nos oferece um tema, juntamente com subsídios, para vivermos de forma mais concreta esse tempo de solidariedade e oração, através da Campanha da Fraternidade. A cada ano nos é oferecido um tema específico de cunho social, ecológico, religioso, algo que interpele a vida do cotidiano da Igreja e dos leigos e leigas.

Esse ano, a Campanha da Fraternidade é ecumênica (CFE 2021), nos unindo as demais Igrejas que compõem o CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Brasil). A Comissão da CFE 2021 escolheu como tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef. 2,14).

 

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O Diálogo que será trabalhado com ênfase, esse ano, é tema de grande relevância para a atual situação de nossas igrejas e essencial na vida pastoral e social. Nada pode ser realizado com um único pensamento ditado como a razão essencial. Tudo deve ser dialogado, seja um estudo, uma teoria, um conselho, um parecer, o diálogo é a base da construção da sociedade.

Jesus é a cabeça da Igreja e é por Ele que aprendemos que o diálogo é um dos pilares da vida comunitária na Igreja. Através dos acontecimentos do Evangelho, podemos perceber sua figura, onde seus atos eram baseados no fato de dialogar, seja com os discípulos, com o povo, com os mestres da lei e fariseus. Era na conversa, era expondo os ideais, confrontando verdades que Ele construía seu discurso evangelizador.

Os diálogos do Messias são ricos em valores e conselhos, tudo para garantir a dignidade da pessoa exposta na perícope. Ele dialoga com cobrador de impostos, com prostitutas, com enfermos, com pessoas que mandam. Para Ele não importava a religião, judeu ou não judeu, pagão, samaritano, romano, ou qualquer dominação e denominação religiosa, a Pessoa Humana era, para Ele, o que importava, pois com ela, Ele criava o diálogo para apresentar o amor e a misericórdia de Deus Pai.

Durante toda história da Igreja, a preocupação com o diálogo é primordial. O Concílio Vaticano II tem como um dos princípios o diálogo inter-religioso, com o Decreto Unitatis Redintegratio, sobre o ecumenismo. Assim nos diz:

“Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II. Pois Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja. Todavia, são numerosas as Comunhões cristãs que se apresentam aos homens como a verdadeira herança de Jesus Cristo” (UR n.1).

Além do decreto, a Constituição Conciliar Gaudim Et Spes – sobre a Igreja no mundo atual, inspirada pelo Espírito Santo, e guiada pelos atos de Jesus Cristo – nos diz que:

“A Igreja, em sinal de solidariedade com toda a família humana, quer estabelecer com ela um diálogo sobre os problemas que a afligem, iluminando-os à luz do Evangelho. A pessoa humana é que deve ser salva, e a sociedade renovada” (GS n.2).

É desejo da Igreja que o diálogo aconteça entre os irmãos, batizados, crentes e não crentes, toda família humana. A constituição abre, para a Igreja, o diálogo com o mundo, base de qualquer relação humana.

O diálogo é a base da missão evangelizadora da Igreja. O Documento de Aparecida, descreve em seu quinto capítulo: “a compreensão e a prática da eclesiologia de comunhão nos conduz ao diálogo ecumênico” (DA, n. 227). Os bispos da América Latina e Caribe se voltam para essa questão em particular.

O diálogo se torna o elo para que batizados possam compartilhar da missão de Jesus, pois é Ele um dos passos do projeto do discípulo missionário, o qual leva a missionariedade. Como nos diz o Documento de Aparecida: “o diálogo e a cooperação ecumênica se encaminhem para despertar novas formas de discipulado e de missão em comunhão” (DA, n. 233). O que nosso Santo Padre, o Papa Francisco, tanto nos pede é uma Igreja em saída missionária, “compromisso missionário de toda a comunidade […] ir ao encontro dos afastados” (DA, n. 226).

O diálogo nos impele e nos faz refletir que “sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa sair pelo mundo sem direção nem sentido” (EG n.46), como nos diz o Papa Francisco em sua encíclica Evangelli Gaudium – A alegria do Evangelho.
Na comunidade que dialoga não deve existir discriminação pois:

“todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar nossas imperfeições, nos oferece sua proximidade, sua Palavra, sua força, e dá sentido à nossa vida” (EG n.121).

Quando eu sigo o exemplo de Cristo, que promove o diálogo e o encontro com o outro, eu assumo a missão em “ter a disposição de levar aos outros o amor de Jesus; e isso sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho” (EG n.127).
Nossa Igreja no Brasil foi clara no mandato da Igreja em saída, no documento 100 – Comunidade de Comunidades uma nova paróquia, quando os Bispos nos orientam:

“É urgente ir ao encontro daqueles que se afastaram da comunidade ou dos que a concebem apenas como uma referência para serviços religiosos. […] supõem um olhar menos julgador e mais acolhedor, para receber aqueles que buscam a comunidade […]. Se forem bem acolhidos, poderão retornar ou ingressar na vida comunitária.” (Doc 100, n.318).

Ir ao encontro dos que precisam conhecer e se encontrarem com o Cristo, nada mais é necessário do que acolhimento e diálogo fraterno, para mostrar a todos, como é bom para a pessoa estar na comunidade de Jesus, entre irmãos e em contato com o Pai das misericórdias.
Santa Tereza de Jesus, em suas obras, nos diz que se não existir diálogo, não acontece o encontro com Ele. Dialogar é prazeroso, uma relação deliciosa (Cf. 2013, p. 501).

Hoje, nossa missão de batizados é ser sinal de uma Igreja viva que se preocupa com a fraternidade. Por meio do diálogo entre os irmãos poderemos alcançar os méritos de uma comunidade irmã, com reflexo de carinho que acolhe a todos sem distinção de raça, gênero, classe social, denominação religiosa.

Assim como Jesus Cristo realizou sua missão, mostrando o Amor acolhedor, façamos nós, para que aqueles que precisam de acolhimento e misericórdia, encontrem em nós, nossas pastorais e grupos, um lugar de abraço e uma oportunidade de viver a vida em Cristo.

Fonte:

https://campanhas.cnbb.org.br/sobre-a-campanha-da-fraternidade-2021.html
CELAM. Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: Edições CNBB; São Paulo: Paulinas; São Paulo: Paulus, 2007.
CNBB. Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Sal da terra e luz do mundo. Documentos da CNBB 105. São Paulo: Paulinas, 2016, n. 183.
Constituição Gaudium et Spes. In Documentos do Concílio Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1966.
Decreto Unitatis Redintegratio. In: Documentos do Concílio Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1966.
FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Vaticano: 2013. In: www.vatican.va.
TERESA DE JESUS. Obras completas. (Coord.) Frei Patrício Sciadini. Tradução do texto estabelecido por Tomás Alvarez, 5. ed. São Paulo: Carmelitas/Loyola, 2013.

Douglas Reis é formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Anhanguera de Taubaté, em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena e pós-graduado em Marketing e Negócios pela UNIFATEA. Catequista e leigo engajado em pastorais na Arquidiocese de Aparecida. Atualmente exerce função administrativa no Departamento Pessoal da Arquidiocese de Aparecida.

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