Comunhão, solidariedade e humanização na pandemia e pós pandemia

Estamos em plena pandemia. De todos os lados nos chegam informações sobre a evolução de casos suspeitos, confirmados, em isolamento, com acompanhamento ou não e, fatalidade, o número de óbitos continua a crescer. Para especialistas, o ápice da contaminação ainda não chegou. Estamos amedrontados, apreensivos, mas com muita esperança por dias melhores. Isso vai passar, vamos sair vitoriosos, dentro de algum tempo.

 

DIRETÓRIO CATEQUESE DESK

 

Tenho refletido, sobre algo muito sério que, nesse tempo de pandemia, vem acontecendo na dinâmica do relacionamento humano. Estamos sem referencial e vislumbramos um horizonte desafiador. Andar protegidos por máscara, evitar contato físico, não pegar o elevador quando há alguém dentro e manter um metro e meio de distância das pessoas são situações que nos afastam numa espécie de medo do outro, do próximo.

Os relacionamentos estão sendo afetados e muito! Possivelmente, ficarão marcas. Essa crise sanitária – Covid19 – está afetando todos os setores da sociedade: a política, a economia, a cultura, os esportes, a educação, os relacionamentos, o comércio, as religiões, e principalmente, nossas comunidades eclesiais missionárias. O perigo iminente à saúde está mudando o mundo, as ações, os hábitos, os pensamentos e as pessoas. O nosso relacionamento intersubjetivo: consciência com consciência está sendo afetado.

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Temos que ser prudentes, seguir as orientações das autoridades competentes e tomar todos os cuidados recomentados nesse isolamento social. Mas, esperançosos, após esse período, porque um novo “normal” vai acontecer. A Igreja é chamada a ser profeticamente, a mensageira de um mundo melhor, novo e não marcado por medo e distanciamento perenizados.

A Igreja tem como objetivo e propósito a perpetuação da obra salvífica de Jesus Cristo na história. Isso implica a pregação do evangelho e o estabelecimento de comunidades em que Deus seja glorificado e os valores do evangelho concretizados (cf.AG 1). Neste momento, porém, a nossa ação pastoral está gravemente afetada. É tempo de reflexão, de arrumar as gavetas e tomar um novo fôlego.

Conscientes de que esse tempo vai passar, necessitamos repensar os pressupostos da ação pastoral, a partir do que as pessoas estão vivenciando no isolamento social, como esteios para uma nova maneira de evangelização. A evangelização não pode parar.

Em tempo de pandemia, a ação pastoral não pode parar. Está havendo um choque livre e dinâmico entre as infinitas ideias e opiniões dos responsáveis pela ação pastoral de caráter mais subjetivo do que objetivo, no ser e agir do evangelho, em relação às consequências dessa pandemia em nossas Igrejas. Estamos, muitas vezes, inculturando uma espécie de endemia eclesiológica, assinalada ou pela inércia total ou por respostas inadequadas para o momento.

Como toda ação pastoral muda em resposta aos tempos acredito que três situações que as pessoas estão vivendo no isolamento social e podem nos ajudar para evangelizar melhor: a comunhão, a solidariedade e a humanização. Essas realidades bem trabalhadas nos irão fortalecer nossa ação pastoral nesse tempo de crise sanitária.

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A comunhão tem a Trindade Santa sua fonte e modelo. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão de pessoas iguais em tudo, cada uma tendo uma posição inconfundível. “A primeira pessoa em relação à segunda é “Pai”, origem e fonte da vida e do amor; a segunda pessoa em relação à primeira é “Filho”, originada, gerada; a terceira pessoa procede do Pai e do Filho, é o “Espírito Santo”. Como o Papa Francisco explica: “Jesus manifestou-nos o rosto de Deus, uno na substância e trino nas pessoas; Deus é todo e só amor, em relação subsistente que tudo cria, redime e santifica, Pai e Filho e Espírito Santo.

Assim como a Trindade é amor-comunhão, o mandamento maior do cristão é o amor experimentado e vivenciado na diferença de pessoas, comportamentos, pensamentos e, mais ainda, nesse tempo em que, apesar do isolamento físico, deve pesar mais a união do que a oposição, a abertura do coração do que muros e fronteiras. O contágio do amor, tornando-se mais forte do que o contágio do vírus, possibilitará uma vida comunitária mais forte, depois que tudo passar.

A solidariedade se solidifica entre as pessoas em contexto de crise. As pessoas estão sendo solidárias umas com as outras. A solidariedade é algo intrínseco à ação pastoral. Vivencia-se um espírito de unidade, interesses, simpatias e propósitos entre as pessoas e grupos que compartilham, colaboram, ajudam e cooperam. Superam, assim, a “cultura do descartável” (EG 53), a “globalização da indiferença” e o “ideal egoísta” (EG 54), por meio da cultura da solidariedade que ouve “o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra” (EG 190). Esta ação solidificada e continuada, na pós-pandemia, fortalecerá nossa ação pastoral.

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Outro princípio é a humanização. Sermos mais humanos uns para com os outros, a exemplo do próprio Cristo. Jesus possui um corpo humano que experimentou crescimento (cf. Lc 2,40), assim como suscetibilidades físicas, a exemplo de fome (cf. Mt 4,2), sede (cf. Jo 19,28), cansaço (cf. Jo 4,6) e morte (cf. Lc 23,46). Vivenciar a dinâmica da humanidade é respeitar o próximo, acertar e respeitar as opiniões das outras pessoas. Exercitar sempre mais este princípio, agora, é uma boa garantia para que saibamos ser mais atentos às necessidades das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, em tempo de pós-pandemia.

 

Assinatura revista posts

 

Em comunhão, solidários e mais humanizados, venceremos e realizaremos uma ação evangelizadora de um jeito “novo normal”, mas sempre fiel ao evangelho de Jesus.

Dom Edson Oriolo é Bispo da diocese de Leopoldina MG

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