Caminhos da arquitetura sacra católica contemporânea

Quando fui contratado em 2005 para fazer minha primeira Igreja, levei imagens de Igrejas contemporâneas famosas para apresentar aos clientes (graças a falta de um portfólio próprio) para melhor entender suas aspirações com o projeto de sua nova igreja. Minha surpresa foi ver que não gostaram de nada, porém me colocaram como referência algumas Igrejas antigas ou a pequena igreja da paróquia ao lado.

Este caso me motivou a fazer regularmente este teste com comunidades ao qual estou projetando suas igrejas. Hoje com mais de uma centena de projetos de Igrejas posso afirmar que esta primeira comunidade não era exceção.

Neste texto está o resumo de algumas reflexões que desenvolvi nos meus anos na prática da arquitetura sacra.

Arquitetura de 17 Séculos e o Paradigma Modernista

No ano de 313 o édito de Milão anunciava o fim da perseguição ao cristianismo e que o seu imperador Constantino era cristão. A partir daí as basílicas (casa do Basileu) foram convertidas no local do culto a cristo. A linguagem arquitetônica destas primeiras basílicas foi relida ao longo dos séculos (românico, gótico, renascimento, barroco, etc.), sem romper traços principais, em que facilmente um usuário recém-chegado a uma localidade possa identificar o edifício eclesial.

No final do XIX e início do XX a revolução industrial e como consequência o movimento moderno revolucionou a forma de se construir, arquitetos iniciam uma nova forma de fazer arquitetura negando a arquitetura produzida até então. “A forma segue a função”, “o menos é mais” e “adorno é crime” são alguns dos dogmas que orientam este movimento.

Academia de Arquitetura em Desencontro com Sacerdotes e Fiéis

Igreja católica como instituição mais antiga do mundo com 17 séculos de identidade arquitetônica não se adequou bem a esta negação do passado, implícita no movimento moderno. Igrejas foram construídas excluindo elementos arquitetônicos que até então identificavam uma Igreja, sendo suprimidas: absides, torres, colunatas; e esquecidos princípios compositivos como: simetria, formato cruciforme, centralidade do altar. Simbologias baseadas em exegeses bíblicas são substituídas por conceitos do arquiteto. Esta negação trouxe um afastamento dos leigos e dos sacerdotes sobre a arquitetura moderna.

A Igreja São Pedro (Campos de Jordão, São Paulo, Brasil) projetada por Paulo Mendes da Rocha é a obra vencedora do Prêmio Pritzker de 2006, dando abertura para concluirmos que para a academia é uma arquitetura sacra modelo. Poucos fiéis a reconhecem como Igreja, em geral a acham muito feia e a relacionam com algo que se pareça a um comércio e não a um templo. De outro lado temos o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida (Aparecida, São Paulo, Brasil) que para o clero é o exemplo de uma bela Igreja, e para arquitetos é um pastiche, um neorromânico mal desenhado.

Figura 1. Igreja São Pedro. Campos do Jordão, SP – Brasil. (Giantomasi, 2015)

Figura 2. Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Aparecida, SP – Brasil. (Acervo Arq. Eduardo Faust)

Este caso não é isolado, quando pergunto a opinião de fiéis e sacerdotes sobre igrejas publicadas em revistas de arquitetura, a grande maioria não aprecia.

O meu diagnóstico até aqui, é que ao contrário de outros usos como universidades, bibliotecas e museus, o esquecimento dos 17 séculos de história não funcionou na arquitetura sacra. Um edifício igreja precisa de referenciais estéticos/simbólicos para ser visto como tal por seus usuários.

Nós arquitetos podemos interpretar estes quase 100 anos de afastamento de uma forma arrogante, utilizando o confortável argumento de que “o público” não evoluiu para entender as obras. Ou perceber que falhamos — que a arquitetura sacra é um caso especial no modernismo e além dele.

As leis da arquitetura sacra católica

O arquiteto antes de projetar qualquer obra deve consultar e seguir normativas legais impostas pelo estado, na Igreja acontece o mesmo, a consulta aos documentos da Santa Sé, da conferência de Bispos e livros de Liturgistas respeitados formam a base para entender o uso da edificação.

Os concílios ecumênicos são encontros de longa duração aonde os bispos da Igreja Católica resolvem questões doutrinais e disciplinares.

Os documentos gerados no início dos anos 60 do século XX no Concílio Ecumênico Vaticano II indicam alterações na forma de celebrar nos templos católicos. Adequação de espaços litúrgicos a luz do concílio vem sendo feitas desde então. O entendimento das formas de celebrar pré-concilio vaticano II também são importantes pois as adequações respeitam a evolução da liturgia e trazem referências do início do cristianismo.

Igrejas executadas antes de 1964 seguiam as orientações do concílio de Trento de 1563, ao buscar referência na história da arquitetura católica o arquiteto deverá atualizar estas influências a luz do Concílio Vaticano II.

Obras comunitárias orçamentos comunitários

O Brasil assim como grande parte dos países da América do Sul, teve uma larga migração do campo para a cidade nos anos 60 e 70, gerando uma grande demanda por habitações. Neste período, pela ausência de recursos, Igrejas improvisadas foram erguidas. Hoje, a mesma população possui recursos para edificar seus templos, porém, ao contrário dos grandes mecenas da Florença renascentista, o poder aquisitivo é médio/baixo, sendo um grande desafio criar muito com pouco.

Eduardo Faust é Arquiteto & Urbanista – FAUST Arquitetura. Arquitetura & Urbanismo – Universidade Federal de Santa Catarina / Brasil. Especialização em Espaço Celebrativo-Litúrgico e Arte Sacra – Pós-Graduação Universidade Jesuíta de Filosofia e Teologia / Brasil.

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