As obras de misericórdia: práticas quaresmais sempre atuais

Passados cinco anos da convocação do Papa Francisco para a realização do Jubileu da Misericórdia, celebrado entre 8 de dezembro de 2015 e 20 de novembro de 2016, precisamos nos perguntar: Qual foi o efeito do jubileu em nossa vida concreta? Como estamos vivendo a misericórdia hoje?

 

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Para bem viver a Quaresma de 2021, nestes tempos de pandemia do novo coronavírus, podemos revisitar as palavras da Bula “Rosto da Misericórdia” para que a conversão quaresmal seja sincera e concreta. Assim ensina o Papa Francisco:

“Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida”.

Quaresma: encontro com o rosto misericordioso do Pai

O tempo da Quaresma existe na Igreja para favorecer a conversão da mente e do coração, como um itinerário de revisão da vida nova recebida no Batismo. A conversão é fruto da oração, do jejum e da esmola, práticas que aprendemos na catequese e nas homilias deste tempo de preparação para a Páscoa.

Neste período oferecido pela Igreja, vivido com intensidade na liturgia, somos convidados a caracterizar a nossa espiritualidade com rosto de misericórdia. Ou seja, pedir ajuda ao Espírito de Deus para orientar nossa consciência na direção dos sinais dos tempos, descobrindo maneiras novas e criativas de revelar o rosto misericordioso de Deus para as pessoas e o mundo inteiro.

Descobrimos o rosto da misericórdia em nossos dias mantendo o olhar fixo em Jesus de Nazaré. Quando paramos tudo que fazemos e dedicamos tempo para meditar sobre o ícone (logotipo) construído para o Jubileu da Misericórdia, podemos contemplar o seguinte: o rosto do Bom Pastor funde-se ao rosto do ser humano carregado em seus ombros. A misericórdia, portanto, se faz desde o olhar encarnado de Jesus para a realidade humana, dando condições para o ser humano olhar a sua volta com olhos transfigurados. Olhos de Páscoa!

Esta é a proposta de Deus quando envia o seu Filho ao mundo: ensinar a transfigurar a realidade, mudar atitudes que nos distanciam das pessoas, para sermos o dedo de Deus onde tudo pode parecer desprezível, descartado, desumano. O dedo de Deus é uma das imagens do Espírito Santo. Por isso, cultivar a espiritualidade da misericórdia é tocar com os nossos dedos as dores, chagas e sofrimentos da humanidade. Os dedos da misericórdia, portanto, são todos os seres humanos de boa vontade que, com as próprias mãos, ajudam a curar as feridas da humanidade, revelando a misericórdia de Deus, que não tem fim.

Viver a Quaresma: aprender e praticar as Obras de Misericórdia

O Papa Francisco orientou que a vivência concreta do Jubileu da Misericórdia se daria pela prática das Obras de Misericórdia corporal e espiritual:

“É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina”.

Em unidade com o Papa Francisco, para bem viver o Tempo da Quaresma proposto pela Tradição da Igreja, dediquemos nosso tempo para redescobrir, meditar e praticar as obras de misericórdia corporal e espiritual:

Sobre as obras de misericórdia corporais:

  1. dar de comer aos famintos: é preciso acordar para a realidade a nossa volta e ser sensível às pessoas que não têm o que comer e sobrevivem de comidas que encontram descartadas em lixeiras;
  2. dar de beber aos sedentos: assumir a fé por meio de práticas generosas, colocando-nos no lugar de quem não tem as condições mínimas de vida digna;
  3. vestir os nus: significa repartir os bens que temos: roupas e outros pertences que temos acumulados. Mas também significa respeitar a integridade das pessoas e não espalhar fofocas, Fake News e mentiras.
  4. acolher os peregrinos: praticar a acolhida é um ato de misericórdia e sinal da conversão do coração, pois também Jesus foi emigrante com sua família e precisou da acolhida e caridade de muitas pessoas.
  5. dar assistência aos enfermos: inspirar-se no Samaritano que foi sensível àquela pessoa caída no caminho e cuidou de suas feridas e ofereceu pousada até recuperar suas forças.
  6. visitar os presos: ter a sensibilidade de compreender que a liberdade é nosso maior bem e visitar as pessoas encarceradas é sinal de carinho e ternura que aprendemos com Deus, que respeita nossa liberdade.
  7. enterrar os mortos: é um convite para pensar nos povos que vivem a dor da guerra, da imigração e outras perseguições. Nem todas as famílias têm a oportunidade da despedida digna de seus entes queridos. E pela fé, somos chamados a contribuir nestes momentos de dor e saudade.

Sobre as obras de misericórdia espirituais:

  1. aconselhar os indecisos: rezar ao Espírito Santo para assistir com seu dom do discernimento no momento de ajudar alguma pessoa a tomar uma decisão.
  2. ensinar os ignorantes: ajudar as pessoas que têm dificuldade com novos assuntos para terem acesso aos conhecimentos mínimo e aprimorarem seus saberes.
  3. admoestar os pecadores: com o critério da correção fraterna, ajudar as pessoas a buscar o caminho da verdade.
  4. consolar os aflitos: ser presença amorosa e acolhedora para as pessoas tristes, desesperadas e quem sofre com depressão.
  5. perdoar as ofensas: perdoar é assumir um projeto de retomar o caminho da convivência com práticas de paz e reconciliação.
  6. suportar com paciência as pessoas inoportunas: sempre escolher o diálogo e a partilha de ideias e nunca a exclusão ou ofensa.
  7. rezar a Deus pelos vivos e defuntos: empenhar-se na oração por todas as pessoas, vivas e falecidas. A oração é a melodia que embala o coração das pessoas de fé.

Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Ariél Philippi Machado é Catequista na Arquidiocese de Florianópolis (SC), membro da Rede Lumen de Catequese, Teólogo e Especialista em Catequese – Iniciação à Vida Cristã

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