A Igreja Católica e sua presença nas comunicações digitais

A Igreja Católica e sua presença nas comunicações digitais

Este texto tem como objetivo discutir o uso realizado pela Igreja Católica das comunicações digitais. Assim por meio de uma pesquisa qualitativa de cunho descritiva e bibliográfica, foi possível perceber, a partir de algumas articulações teóricas, que o uso de recursos digitais pela Igreja Católica é de fundamental importância, uma vez que a tecnologia, atualmente, permeia todo o cotidiano dos fiéis em diferentes áreas da sociedade. Desta forma, constatou-se que esta relação entre as mídias digitais de comunicação e a Igreja Católica se torna um cenário cada vez mais visível e recorrente na atual sociedade, sinalizando aos fiéis, principalmente aos fiéis jovens, um real campo de trabalho, que se torna cada dia mais frutífero para estudo.

 

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Introdução

O uso da tecnologia em nosso cotidiano é um tema que, há décadas, tem despertado o interesse de pesquisadores em diferentes áreas, como psicologia, educação, ensino, pedagogia, comunicação, teologia, dentre outras. A partir da década de 80, especificamente, a tecnologia começou a ganhar destaque em pesquisas publicadas no âmbito da comunicação, sendo tema principal de dissertações, teses e artigos científicos publicados em eventos e periódicos.

Traçando um paralelo do início do século XX, até os dias atuais, imaginar e até falar de avanço tecnológico, seria considerado por muitos uma utopia, principalmente quando nos referimos a determinados grupos sociais.

Sendo assim, é latente a necessidade de as instituições se adaptarem a este novo contexto em que os indivíduos estão inseridos para, de forma gradual, poder alcançar o maior número de pessoas possíveis.

Neste sentido, atualmente, é possível perceber determinado crescimento relacionado à presença da Igreja Católica nos meios tecnológicos, em especial, naqueles relacionados à comunicação digital.

Dado este contexto, o intuito deste trabalho é trazer à baila uma discussão referente ao uso realizados pela Igreja Católica das comunicações digitais e os impactos de tal uso no que diz respeito aos religiosos.

Neste contexto, este artigo se propõe, por meio de uma pesquisa qualitativa de cunho descritivo e interpretativo (STAKE, 2016) a explorar algumas relações entre o processo comunicativo, com foco em recursos digitais, e a Igreja Católica. Todas as argumentações estão pautadas em documentos vigentes e naquilo que já há registrado na literatura da área.

Sobre a comunicação da Igreja Católica

Conforme discutido por Sousa (2013), a Igreja Católica, especificamente a Igreja Católica Apostólica Romana, há muito tempo tem demonstrado seu interesse e preocupação em aderir meios modernos de comunicação para atingir a uma parcela importante da população quando o assunto é religião: a população jovem.

A frase atribuída ao então papa João Paulo II “precisamos de jovens de calça jeans e tênis” corrobora com esta intenção da Igreja de levar a evangelização a esta parcela da população.

Sobre os documentos relacionados à Comunicação da Igreja Católica, Dávila (2005) afirma que o primeiro documento oficial relacionado à comunicação social data de 1487.

Sousa (2013, p. 27) ensina que

A preocupação moral, desconfiança política e suspeita ética recaía sobre a incipiente revolução de Gutemberg: a imprensa. O Inter Multiplices (destaque meu), documento do papa Inocêncio VIII, sinalizou a atitude defensiva como sendo a postura que a igreja adotaria nos seguintes 500 anos. Posteriormente, em 1559, diante das consequências de liberdade de circulação do conhecimento, a instituição católica manifesta-se contrária a qualquer edição textual, acusando de nocivos quaisquer pensamentos a serem difundidos sem sua autorização. O papa Paulo IV publicaria o Index, listagem oficial de livros proibidos, que só seria abolido depois de 407 anos, com o papa Paulo VI.

Assim, muito antes da grande popularização da internet, que no Brasil aconteceu por volta dos anos 2000, a Igreja Católica já vinha demonstrando preocupação com a utilização dos modernos meios de comunicação social, conforme demonstrado na instrução pastoral Communio et Progressio, de 1971 , que frisa que “os modernos meios de comunicação social dão ao homem de hoje novas possibilidades de confronto com a mensagem evangélica” (O’CONNOR, 1971, s.p.), abordando temas como a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão.

Sousa (2013) afirma que vários papas vêm ressaltando a importância dos meios de comunicação para a Igreja. Além da fala de São João Paulo II, citada anteriormente, o Papa Paulo VI afirmou que “a Igreja viria a sentir-se culpada diante do seu Senhor, se não lançasse mão destes instrumentos de evangelização” (Sousa, 2013, p. 26).

De forma geral, a Igreja Católica utiliza os chamados mass media que são sistemas organizados de produção, difusão e recepção de informação. De acordo com Sousa (2013), estes sistemas são gerenciados por empresas especializadas na comunicação em massas e exploradas nos regimes concorrenciais, monopolísticos ou mistos. As empresas podem ser privadas, públicas ou estatais, de acordo com a região em que está inserida.

O então Papa João Paulo II definiu também os mass media como

“o primeiro areópago dos tempos modernos”, afirmando que “não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta ‘nova cultura’, criada pelas modernas comunicações” (JOAO PAULO II apud SOUSA, 2013, p. 27).

Percebe-se, com essas falas, que a aceitação da Igreja Católica dos meios de comunicação foi acontecendo de forma gradual. Puntel (2008) afirma que tal aceitação não foi necessariamente imediata porque, de início, a Igreja Católica tinha muita desconfiança com relação à efetividade do uso de recursos comunicacionais, em especial, os recursos digitais.

De acordo com o autor supracitado, a comunidade eclesial começou a ter o controle sobre a imprensa, o cinema e o rádio ao mesmo tempo que a sociedade começou a se adaptar aos novos tempos, uma vez que foi a própria sociedade que colocou determinada pressão à instituição católica, que acabou aceitando, ainda que com desconfiança, os meios eletrônicos (PUNTEL, 2008).

Isto posto, na sequência discutir-se-á o uso de comunicações digitais pela Igreja Católica.

Sobre o uso das comunicações digitais pela Igreja Católica

A Igreja Católica e sua presença nas comunicações digitais

Como citado anteriormente, de forma predominante, a Igreja Católica utiliza constantemente os mass media para evangelizar e anunciar o evangelho (Harvey, 2003). O próprio processo de evangelização utilizado pela Instituição religiosa está em constante atualização. Porém, conforme destaca Sousa (2003, p. 32)

[…] percebe-se na atualidade que as missas, palestras, homilias, entre outros, que antes eram realizadas em ambientes fixos, passaram a ter lugar garantido também nas plataformas comunicacionais. Sendo propagadas inicialmente pelos meios tradicionais, televisão, rádio e jornal, hoje as mensagens religiosas estão se deixando influenciar pelas atuais tecnologias da comunicação.

O uso de recursos digitais está associado à pós-modernidade. Conforme destaca Harvey (2003, p. 110) uma das características da pós-modernidade é “reconhecer as múltiplas formas de alteridade que emergem das diferenças de subjetividade, de gênero e sexualidade, de raça, de classe, de (configurações de sensibilidade) e de localizações e deslocamentos geográficos espaciais e temporais”.

Tal necessidade vai de encontro a um passado não muito distante, em que os católicos ficavam satisfeitos apenas com as palavras do padre na missa, com sua homilia, sem questionamento algum. Não haviam, por parte dos religiosos, nenhum tipo de indagação ou questionamentos sobre os assuntos explorados pela igreja.

Este cenário está modificado nos dias atuais, pois, como discute Sousa (2013), apesar de poder se constatar bastante aceitação por parte dos católicos, existe uma significativa mudança na comunidade eclesial que começa a não só participar mais das ações da Igreja, mas começam também a questionar, elogiar, criticar e sugerir ações de dentro, e fora, da Igreja o que reforça a necessidade de a Instituição investir bastante em ações de comunicação.

Com isso, é possível perceber na Igreja uma significativa mudança no modo de ser e fazer igreja (missas, grupos, novenas, homilias, pastorais) nos dias atuais. Sousa (2013, p. 32) afirma que estes eventos, até há pouco tempo atrás, “[…] poderiam ser “assistidos” apenas no templo, na igreja, junto com a comunidade, ou, ao máximo, poderiam ser assistidos pela televisão, ouvidos no rádio ou lidos no jornal”.

Porém, hoje, com o advento da tecnologia, os eventos religiosos ganharam mais alcance, assistidas e interagidas por meio da internet, como em blogs católicos ou mesmo sites religiosos especializados em que o fiel pode comentar, sugerir, reclamar ou elogiar os assuntos ali tratados, as programações religiosas chegam a pessoas que antes tinham poucas chances de conhecê-las (SOUSA, 2013).

Em sua pesquisa, Gomes (2002) traça um paralelo entre o posicionamento da Igreja Católica frente ao mercado da comunicação e o consumismo que circunda a sociedade atual.

Nas palavras do autor supracitado, quando este analisa a religião, em especial a Igreja Católica, na era do consumismo exacerbado ele afirma que “[…] como o consumo é individual e solitário, a pessoa deve dar mostras de que está ligada, engajada” (GOMES, 2002, p. 10). Além disso, o autor reforça que, com o uso das comunicações digitais

[…] uma nova Igreja é criada, universal e virtual. Os templos são os próprios lares; os púlpitos são os aparelhos de televisão; o sinal da pertença ao grupo se expressa no consumo. Somente é fiel dessa Igreja aquele que possui capacidade de consumir alguns dos produtos por ela vendidos. Repete-se, no campo religioso, o que Canclini aponta para o campo social e político: consumidores e cidadãos. Aqui, consumidores e fiéis (GOMES, 2002, p. 10).

Já existem diversas pesquisas que elencam as vantagens (e mesmos desvantagens) do uso da tecnologia em diferentes âmbitos: empresarial, educacional, médico, etc. Dentre tais vantagens é possível destacar a flexibilidade e a democratização dos acessos. Estas vantagens podem, perfeitamente, ser estendidas à Igreja Católica.

Dentre as desvantagens do uso da tecnologia pela Igreja Católica, Azevedo (2010, p. 17) afirma que a maior delas é a virtualização do afeto. De acordo com o autor “vivemos hoje o fenômeno da igreja virtual, conduzida por pessoas sem rostos, sem manifestação de afeto, que se conhecem apenas pela voz e pelo número da conta bancária onde estes depositam os recursos para manter os programas”, assim, apesar das várias vantagens do uso de meios de comunicação digital pela Igreja Católica, é necessário ter cuidado com as armadilhas do referido uso.

Ainda assim, parece haver uma concordância entre os teóricos que as vantagens se sobressaem às vantagens. Um exemplo prático da efetividade do uso de comunicações digitais na Igreja Católica é a existência de dioceses virtuais que possuem adeptos e fieis de várias partes do mundo.

Gomes (2010, p. 29) exemplifica uma dessas dioceses, esboçando, ao mesmo tempo, suas preocupações com este tipo de ação

Partenia é uma diocese virtual . Um bispo francês perdeu a sua diocese em função de um problema com o Vaticano. Para continuar exercendo a função de bispo, o Vaticano o nomeou como bispo de Partenia, que foi uma diocese da Ásia Menor, a qual acabou há dois mil anos. Os amigos queriam saber o que era a tal Partenia, e ele explicou que se tratava de uma diocese ‘virtual’. A partir disso, os amigos dele tiveram a ideia de criar uma diocese na Internet. O site deles funciona em espanhol, alemão, francês, inglês e português e tem fiéis no mundo todo. No momento em que eles criam uma diocese virtual e que esse bispo começa a interagir com todas essas pessoas, que religião emerge desse processo? Que Igreja é essa? Que tipo de religiosidade nasce? Se não nos preocuparmos com isso, estaremos gerando efeitos desconhecidos, e, por via das vezes, contrários ao que desejamos. Não sou contra esses sites, acho que eles são importantes, mas precisamos refletir sobre essas questões.

A existência da Partenia, e de outras dioceses virtuais, corrobora a afirmação de que, na sociedade contemporânea, vive-se uma efetiva mudança comportamental das pessoas como um todo.

O mundo, incluindo a Igreja Católica, está inserida no meio de um processo de transformação de uma “antiga ambiência”, caracterizada por um mundo analógico, de produtor, receptor e canal; para um “mundo novo”, uma “nova ambiência”, caracterizada pelo processo de midiatização da sociedade, ainda pouco conhecida e explorada, mas que tem como uma de suas principais características o compartilhamento de informações, a participação, a inteiração entre os diferentes sujeitos (SOUSA, 2013).

Com isso, temos que a sociedade está se tornando, efetivamente, midiatizada e, considerando que a Igreja deve acompanhar as transformações de seus tempos, esta deve se adaptar a estas novas realidades.

Considerações Finais

Com o empreendimento de discutir o uso realizado pela Igreja Católica das comunicações digitais, este texto se propôs a apresentar uma discussão teórica referente ao processo comunicacional da Igreja Católica frente ao atual cenário midiatizado da sociedade.

Após algumas articulações teóricas, foi possível perceber que o uso de recursos digitais pela Igreja Católica é de fundamental importância, uma vez que a tecnologia acaba permeando todo o cotidiano dos fiéis em diferentes áreas da sociedade.

Esta relação entre os recursos tecnológicos, no caso deste texto, as mídias digitais de comunicação e a religião, com foco na Igreja Católica, escopo deste trabalho, se torna um cenário cada vez mais visível e recorrente na atual sociedade, sinalizando aos fiéis, principalmente aos fiéis jovens, um real campo de trabalho, que se torna cada dia mais frutífero para estudo pois requer, ainda e por bastante tempo, muita pesquisa, pois há mais indagação, perguntas, que efetivamente respostas e questões já resolvidas.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, N. S. O fenômeno religioso na pós-modernidade. Editora Ática, 2010.

GOMES, P. G. Da Igreja eletrônica à sociedade em midiatização. São Paulo: Paulinas, 2010.

HARVEY, D. Condição pós-moderna. 12. ed. São Paulo: Loyola, 2003.

O’CONNOR, M. Communio et Progressio: sobre os meios de comunicação social. Publicada por mandato do Concilio Ecuménico Vaticano II, 1971.

PUNTEL, J. T. Cultura midiática e igreja: uma nova ambiência. São Paulo: Paulinas, 2008.

SOUSA, T. M. Igreja Católica no Mundo Digital: as tensões entre discurso e prática da igreja na era da internet e as redes de relacionamento do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, como fenômeno de midiatização religiosa. Dissertação. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. Universidade do Valr do Rio dos Sinos, 2013.

STAKE, R. E. Pesquisa qualitativa: estudando como as coisas funcionam. Penso Editora, 2016.

Antonio Augusto Dornelas de Andrade é Licenciado em Filosofia (Faculdade Católica de Anápolis) e História (FAVENI), Bacharel em Teologia (Puc-Rio). Mestrando em Educação da Universidad Columbia del Paraguay. E-mail:antonioandradepy@gmail.com

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